Portugal não aguenta outro confinamento – Observador

Portugal não aguenta outro confinamento – Observador

Ainda se pondera se teremos outro confinamento no Outono, como se a decisão fosse entre economia e saúde, ou sequer possível. Como se só a saúde dissesse respeito às pessoas e a economia às grandes empresas. No entanto, não só a economia é a essência da vida das pessoas, porque reflecte as suas decisões no dia-a-dia, como o confinamento da última Primavera as prejudicou. Mais: ao dificultar o acesso aos cuidados de saúde, o confinamento poderá estar na origem de um aumento recorde do número de óbitos por outras causas que não as derivadas da Covid-19. Ou seja, um novo confinamento em nome da saúde, não só nos será nocivo física e mentalmente, como prejudicará ainda mais, económica e financeiramente, os cidadãos e as famílias, com o aumento do fosso entre os que têm trabalho garantido e os que o perderam. Entre os alunos que têm acesso a boas escolas e os que se ficam a acompanhá-la pela televisão. Entre os que têm acesso a bons médicos e os que se põem à janela a vê-los passar.

Ainda há quem espere por uma recuperação da economia em V. Uma vitória sobre o vírus, qual reviravolta. Uma recuperação, já de si difícil, mas que poderá ser problemática se houver outro confinamento. Problemática porque para qualquer recuperação económica é preciso investir e para se investir é preciso capital e este não existe. Não o têm as famílias que não poupam, nem as empresas que vivem a crédito, menos ainda os bancos, que deles o melhor é nem falar. Fora o que os bancos centrais despejam na economia, o dinheiro não se encontra, tão escondido que está no meio da dívida. Há um certo exagero nisto, mas que reflecte uma verdade que é a falta de meios financeiros para darmos a volta por cima; para que tenhamos a dita e tão desejada recuperação em V.Há também ainda quem acredite, que esta crise é diferente da de 2011 porque ninguém a provocou. Que resulta de um vírus, de um acontecimento totalmente aleatório, de cariz natural e não humano. Mas tal não é verdade. A pandemia só acentuou a crise da dívida, cujos sintomas graves experimentámos há nove anos. Aliás, uma crise da dívida que nos estagna desde o início do século.Vamos ficar-nos por Portugal para percebermos melhor as dificuldades que atravessaremos nos anos mais próximos. É provável, que com a pandemia haja perto de 500 mil desempregados no nosso país. Representam 5% da totalidade da população portuguesa; cerca de 10% da população activa. São pessoas que vão precisar de receber subsídio de desemprego pago por um Estado com uma dívida pública crescente, que se aproxima dos 135% do PIB. São pessoas que deixaram de pagar impostos, de forma que o Estado vai perder receitas. São cidadãos que não vão investir, não vão gastar, não vão poupar e, caso haja outro confinamento, não poderão sair à rua para procurar emprego. Mas acima de tudo, são pessoas que o Estado só pode ajudar se hipotecarmos ainda mais a vida das crianças e dos que ainda não nasceram. Portugueses, esses, que ou serão como nós e também não vão cuidar do futuro ou, se o fizerem, sentirão por nós um desprezo triste, mas salutar.Depois temos as muitas empresas que fecharam. Estas eram como pequenos pelotões de mulheres e homens que trabalhavam, criavam riqueza, recebiam os seus ordenados e vencimentos e levavam dinheiro para casa. Muitas das empresas que fecharam eram pequenos negócios que permitiam um nível de desemprego relativamente baixo, embora fosse um trabalho precário e de baixo rendimento. De fonte de riqueza, essas empresas tornaram-se em fonte de problemas. Para os trabalhadores que perderam o emprego e para os empresários que, além de ficarem sem o seu ganha-pão, se afundam em burocracia e dívida.Há ainda quem aguarde pelos milhões de Bruxelas, como se esses fundos não fossem para projectos específicos e a conta-gotas. Como se esses fundos, que o país precisa com urgência, não acabem por distorcer ainda mais a economia, já que o seu destino é decidido centralmente e não de acordo com a procura dos consumidores.

Com menos receitas e mais despesa o Estado vai ter mais dificuldade para cumprir as suas funções na justiça, na saúde e na educação. Se durante o confinamento, as listas de espera aumentaram e as consultas foram suspensas, o SNS não tem condições para recuperar os meses perdidos. Pior: com menos dinheiro é bem provável que a degradação do SNS (fruto das cativações a que os governos socialistas, com o apoio do BE e do PCP, nos habituaram nos últimos anos) se venha acentuar. Se antes de Março 2020, os tribunais levavam anos a proferir as suas sentenças, a situação delicada em que a justiça portuguesa se encontra não melhorou só porque o Governo deixou de se preocupar com o assunto.Esta é a situação em Agosto antes de um possível novo confinamento, que, a acontecer, agravará ainda mais a situação económica, financeira, social, política e educativa do país. A nossa margem é muito pequena, porque temos uma das maiores dívidas do mundo (que Marcelo não se deu ao trabalho de referir quando nos dizia os maiores em qualquer coisa inócua e sem interesse ). Uma margem tão pequena, que leva a que me pergunte como António Costa tenciona completar os três longos anos que ainda tem de legislatura. Me levam a questionar, como já fiz, se Marcelo, um político hábil e esperto, pondera mesmo candidatar-se. Na verdade, se o fizer, vai encontrar um país muito diferente do de 2015, menos propício a festas e palmadinhas nas costas, mais irritado, mais pobre, mais doente, mais triste (logo ele, que nos queria alegrar), menos educado e menos pronto a aceitar que se passe uma esponja por cima da corrupção, do compadrio e dos variadíssimos esquemas através dos quais o PS vai estendendo a sua rede.Durante cinco anos, o país foi governado com fanfarronice. Com o alto patrocínio das mais altas figuras do Estado (Presidente da República, Primeiro-Ministro e presidente da Assembleia da República) fez-se de conta que o problema que nos caiu no colo em 2011 se resolveu com um excedente orçamental vago e volúvel, para não dizer pior. Perdemos tempo e agora acusa-se um vírus de um mal que já existia: dívida, má gestão pública, maus governantes, más decisões, péssimas estratégias. Pouco ou nada de virtudes políticas e humanas, como António Costa nos mostrou, em Outubro de 2019, no Terreiro do Paço e em off ao Expresso, ainda há dias. Pouco mais que um pesadelo, que exigirá o melhor de cada um de nós. Que nos eleve a níveis de excelência que tempos normais não permitiriam. Valha-nos isso, porque de cobardes não temos nada, é para isso que cá estamos.


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